O Brasil detém cerca de 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras, equivalentes a 23% do total mundial, mas ainda responde por menos de 1% da produção global. Esses elementos são essenciais para motores de carros elétricos, turbinas eólicas, celulares, satélites, equipamentos médicos, sistemas de defesa e infraestrutura digital. A dependência dessas matérias-primas tem motivado governos e empresas a tratarem o tema como questão de segurança econômica e industrial.
A importância das terras raras
O grupo de terras raras engloba 17 elementos químicos, incluindo os lantanídeos e o escândio e ítrio. Os mais cobiçados são neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, usados em ímãs permanentes de alto desempenho. De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), esses ímãs representam 95% do valor consumido desses elementos e tiveram demanda dobrada desde 2015, devendo crescer mais de 30% até 2030.
Potencial e produção brasileira
Embora o Serviço Geológico do Brasil (SGB) estime 21 milhões de toneladas em reservas, a produção nacional foi de apenas 20 toneladas em 2024. Já o Serviço Geológico dos Estados Unidos projetou 2 mil toneladas para 2025, contra 270 mil toneladas da China e 390 mil toneladas globalmente. Para André Pimenta, coordenador do CIT SENAI ITR, transformar reservas em minas operacionais envolve licenciamento ambiental, investimentos em sondagens, infraestrutura e estudos tecnológicos, processos que podem levar anos.
Desafios na mineração e processamento
Além da lavra, o grande desafio está na separação química e no refino dos minerais. Após extraídos, os minérios precisam ser transformados em óxidos, purificados, convertidos em metais, ligas e, finalmente, em ímãs. “O processing do minério o Brasil faz. Agora, a extração das terras raras do minério ainda é o gargalo”, observa Sidney Ribeiro, professor da Unesp de Araraquara.
Domínio da China na cadeia
Em 2024, a China respondeu por 60% da produção minerada, 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs permanentes. O controle das etapas de beneficiamento e manufatura torna o país líder do setor, com impactos ambientais significativos. Restrições chinesas nas exportações de terras raras pesadas em 2025 geraram dificuldades de abastecimento e elevaram o debate sobre soberania tecnológica.
Novo cenário geopolítico e oportunidades
Termos como near shore e friendly shore passaram a nortear a estratégia de abastecimento, buscando fornecedores próximos ou alinhados geopoliticamente. Países como Estados Unidos, União Europeia, Japão e Coreia do Sul observam o Brasil como alternativa ao monopólio chinês, mas a IEA alerta que projetos fora da China ainda são insuficientes para atender à demanda de mineração, refino e fabricação de ímãs até 2035.
Imagem: Terras raras – CIT Senai ITR
O papel ambiental
A extração e o refino de terras raras envolvem uso de reagentes químicos, geração de rejeitos, consumo de água e riscos associados a elementos radioativos, como a monazita. O Brasil precisará combinar licenciamento rigoroso, rastreabilidade e tecnologias de baixo impacto para se diferenciar e garantir uma cadeia produtiva sustentável.
O grande dilema nacional é decidir entre manter o papel de exportador de matéria-prima ou avançar na produção de óxidos purificados, metais, ligas e componentes de alto valor agregado. A escolha definirá se o país ficará restrito ao fornecimento de recursos ou adquirirá protagonismo na indústria do futuro.
Com informações de Olhardigital