Durante o encontro anual da American Diabetes Association (ADA), em junho de 2026, em Nova Orleans (EUA), pesquisadores apresentaram resultados da survodutida, molécula experimental desenvolvida pela Boehringer Ingelheim. Além do esperado efeito na perda de peso, o que chamou atenção foi a queda expressiva da gordura acumulada no fígado de pacientes obesos.
O novo foco do tratamento
Segundo Clayton Macedo, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), em entrevista ao G1, “não faz mais sentido olhar apenas para quantos quilos foram perdidos”. A discussão agora se volta para avaliar impactos em órgãos-alvo, especialmente o fígado.
Resultados de fase 3 na prática clínica
Em estudo de fase 3 publicado na revista Nature Medicine, 216 adultos com obesidade e esteatose hepática foram divididos entre survodutida e placebo. Os voluntários que receberam a molécula apresentaram redução média de quase 60% na gordura do fígado. Enquanto 84% do grupo ativo atingiram pelo menos 30% de diminuição, no placebo esse índice foi de 24%. Quase 60% dos participantes tratados alcançaram níveis de gordura hepática considerados normais. Além disso, marcadores inflamatórios, como a enzima ALT, também apresentaram queda.
Confirmação em estudo com ressonância magnética
Outra pesquisa, com 725 adultos obesos sem diagnóstico de diabetes publicada no New England Journal of Medicine, reforçou os achados. Uma parte dos voluntários foi submetida a ressonância magnética, método preciso para quantificar gordura corporal. Nesse grupo, a mielina visceral caiu cerca de 34% (vs. 12% no placebo) e a gordura hepática recuou 63%. A massa magra foi preservada, indicando que o peso perdido ocorreu principalmente por redução de tecido adiposo. Em 76 semanas, a perda de peso média atingiu 16,6%, acompanhada de melhora na pressão arterial, nos níveis de triglicerídeos e na circunferência da cintura.
Dupla ação: GLP-1 e glucagon
Ao contrário da maioria dos medicamentos que agem apenas no receptor de GLP-1, a survodutida é agonista duplo, combinando efeitos sobre GLP-1 e glucagon. Fernando Valente, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), comenta que isso pode explicar o impacto adicional no fígado: “O fígado tem muitos receptores para glucagon. Ele estimula o uso da gordura como energia e aumenta o gasto energético.”
Mudança no conceito de gordura hepática
Hoje, a esteatose hepática é reconhecida como marcador de risco metabólico, associada a doenças cardiovasculares, diabetes e inflamação crônica. A condição é classificada como doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), com potencial evolução para esteato-hepatite metabólica (MASH), fibrose, cirrose e até câncer de fígado.
Imagem: Imagem ilustrativa
Os efeitos adversos observados com a survodutida seguem o padrão da classe de agonistas de GLP-1, com náuseas e vômitos leves a moderados, principalmente no início do tratamento, sem relato de óbitos. Especialistas ressaltam que, devido a diferenças de desenho e população nos estudos, não é possível comparar diretamente a survodutida com outras moléculas experimentais.
O debate apresentado na ADA reforça uma mudança de abordagem na medicina metabólica: a obesidade é tratada no centro das discussões e os novos medicamentos são desenvolvidos para atuar em múltiplos sistemas do corpo, com destaque para o papel do fígado nos benefícios clínicos observados.
Com informações de Olhardigital

