Um artigo recente, submetido ao Astrophysical Journal e disponibilizado no arXiv, propõe que muitos planetas classificados como rochosos apresentam uma estrutura interna distinta do modelo tradicional. A pesquisa aponta que, em corpos com quantidade significativa de hidrogênio, ferro e silicatos se misturam sob altas pressões e temperaturas, resultando em um interior homogêneo sem separação entre núcleo e manto.
Modelo clássico e exceção terrestre
Historicamente, planetas rochosos são descritos por um núcleo metálico denso rodeado por um manto de silicato e uma fina atmosfera. A Terra exemplifica esse padrão. No entanto, a análise concentra-se em sub-Neptunos e super-Terras — exoplanetas maiores que a Terra, mas menores que Netuno —, que constituem a maioria dos mundos rochosos detectados até o momento. Sob condições extremas, acima de 4.000 K, o comportamento do hidrogênio, do silicato fundido e do ferro torna-se miscível, eliminando fases separadas.
Critério de miscibilidade e implicações
Os autores estabelecem que, quando um planeta acumula mais de 1% de sua massa em hidrogênio, ocorre a miscibilidade completa dos materiais, formando um fluido contínuo que se estende até o centro do corpo celeste. Caso o porcentual seja inferior a esse limiar, mantém-se a divisão clássica entre núcleo e manto. Esse novo cenário explica dois fenômenos observacionais problemáticos para modelos tradicionais: a lacuna de raio entre super-Terras e sub-Neptunos identificada pelas missões Kepler e James Webb, e a relação entre o raio planetário e o período orbital.
Hidrogênio emergindo ao longo do tempo
No modelo alternativo, sub-Neptunos jovens retêm grande quantidade de hidrogênio misturado. À medida que esses planetas esfriam em centenas de milhões de anos, o gás borbulha gradualmente até a atmosfera, deixando-os temporariamente mais inchados. Os pesquisadores sugerem que observações do JWST e de futuros levantamentos de trânsito em sistemas estelares com dezenas de milhões de anos poderão testar essa previsão.
Limitações e abordagem
Os cientistas reconhecem que a proposta se baseia em extrapolações teóricas de alta pressão ainda não alcançadas em laboratório e em balanços térmicos internos incertos. A metodologia de modelagem inversa, que parte de dados populacionais para inferir a física interna, tem caráter estatístico e não determinístico.
Imagem: Imagem ilustrativa
Segundo os autores, o tipo mais comum de planeta na Via Láctea pode ter uma configuração interna totalmente diferente da terrestre, tornando a estrutura tradicional de núcleo metálico uma exceção, e não a regra.
Com informações de Olhardigital
