A Europa registrou temperaturas acima de 40 °C em países como Alemanha, França, Espanha, Hungria e Áustria no final de junho, de acordo com comunicado da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Em algumas cidades, os termômetros bateram recordes históricos, evidenciando que o continente é o que mais esquenta no planeta.
Dados da OMM mostram que, nos últimos 50 anos, a temperatura média na Europa subiu cerca de 2 °C. Esse aumento supera a meta do Acordo de Paris, firmado em 2015, que estabelece o limite de 2 °C de aquecimento em relação à era pré-industrial, com esforço para não ultrapassar 1,5 °C.
Bloqueio atmosférico e mudanças climáticas
O principal fator imediato para a onda de calor foi o fenômeno chamado Omega Block, uma área de alta pressão estacionária que formou uma “cúpula de calor” sobre o continente. “Tivemos um sistema que aprisionou o calor em grande parte da Europa. É uma massa de ar seco sem possibilidade de formar nuvens, acumulando temperaturas elevadas por dias”, explica Mariana Pallotta, meteorologista do Cemaden.
Segundo a chefe do clima da ONU, Simon Stiell, a onda de calor “tem todas as marcas da crise climática”. Ele alerta que, enquanto houver queima de carvão, petróleo e gás, o calor extremo continuará a piorar, e defende a transição para energias renováveis e a proteção de florestas.
Por que a Europa aquece mais rápido
O derretimento do gelo marinho no Norte expõe a água aos raios solares, aumentando a absorção de energia. Paralelamente, a cobertura de neve no solo em 2025 ficou cerca de um terço abaixo da média, segundo o programa Copernicus. Com mais superfície exposta, o aquecimento acelera.
Essas alterações afetam a circulação de ar: as correntes de jato, responsáveis por deslocar sistemas meteorológicos, podem enfraquecer ou ondular, favorecendo bloqueios atmosféricos que prolongam períodos de calor, frio, chuva ou seca. Foi esse desvio do jato que manteve o bloqueio Omega e intensificou a radiação solar.
Impactos na infraestrutura e na saúde
Muitos edifícios europeus foram projetados para o frio, com isolamento e janelas pequenas, e não têm sistemas de resfriamento adequados. A alta demanda por energia no verão ainda enfrenta limitações na rede elétrica, agravadas pela guerra entre Rússia e Ucrânia.
Para Roberto Uebel, professor da ESPM, mesmo a eventual queda da tensão geopolítica não resolveria a crise energética: “A Europa precisa modernizar sua matriz para conciliar segurança energética, pressão política e mudanças climáticas”.

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No âmbito individual, o documentarista Felipe Cereser, em Turim, relata aumentos consideráveis na conta de luz e quedas de energia de até 10 horas em alguns bairros, diante da sobrecarga pelo uso de ventiladores e ar-condicionado.
Do ponto de vista da saúde pública, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, informou que mais de 1.300 mortes em excesso ocorreram na última semana de junho. Estudos de 2000 a 2019 indicam cerca de 489 mil mortes anuais relacionadas ao calor, sendo 36% delas na Europa.
O neurologista Sérgio Jordy alerta para riscos como desidratação, cefaleia, tontura, convulsões e até AVC, especialmente em idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas. A recomendação é manter-se hidratado e evitar exposição nos horários de pico de calor.
El Niño sem influência significativa
Embora o El Niño já esteja em formação, ele não costuma afetar diretamente o clima europeu, sobretudo na Europa Central. Conforme Mariana Pallotta, “essa onda de calor não tem relação direta com o início do El Niño”.
O cenário reforça a necessidade de adaptação às altas temperaturas e investimentos em infraestrutura e sistemas de alerta para enfrentar ondas de calor cada vez mais frequentes.
Com informações de Olhardigital


