Beijing, 27 de junho de 2026 – Para mitigar a crise hídrica que afeta o norte do país, a China vem deslocando grandes volumes de água das regiões úmidas do sul por meio do ambicioso Projeto de Transferência de Água Sul-Norte (SNWTP). Iniciado em 2002, o empreendimento reúne uma complexa estrutura de canais, túneis, reservatórios, barragens, estações de bombeamento e tubulações, interligando quatro bacias hidrográficas e seis províncias.
Desequilíbrio entre oferta e demanda
Apesar de deter cerca de 20% da população mundial, a China possui apenas 6% das reservas globais de água doce, distribuídas de modo irregular. Enquanto o sul registra chuvas intensas e rios volumosos, o norte concentra metrópoles como Pequim e Tianjin, onde a oferta equivale a menos de mil metros cúbicos por habitante ao ano – índice que a ONU classifica como escassez hídrica.
Rotas leste e central em operação
A rota leste, utilizada desde meados da década de 2000, aproveita parte do histórico Grande Canal para captar água do rio Yangtzé e avançar mais de mil quilômetros até as áreas secas do norte. Em trechos de subida, estações de bombeamento elevam o fluxo. Já a rota central desloca recursos do rio Han, afluente do Yangtzé, por cerca de 1.270 quilômetros em trajeto quase todo descendente, reduzindo o consumo energético. Juntas, essas duas rotas já transportaram dezenas de quilômetros cúbicos de água, atendendo centenas de milhões de pessoas e suprindo até 70% do abastecimento de Pequim.
Impactos sociais e ambientais
A expansão do reservatório de Danjiangkou, por exemplo, exigiu o reassentamento de cerca de 350 mil moradores. Ecologistas apontam ainda desequilíbrios nos ecossistemas locais, alteração no fluxo natural dos rios e risco de intrusão salina em aquíferos costeiros. Pesquisadores alertam que a remoção de grandes volumes pode agravar a situação hídrica nas regiões doadoras.
Próxima etapa: rota ocidental
Para reforçar o sistema, o governo projeta uma terceira rota que partiria do Planalto Tibetano, entre 3.000 e 4.500 metros de altitude, até a bacia do Rio Amarelo. O desafio técnico envolve a perfuração de centenas de quilômetros de túneis, construção de barragens gigantescas e estações de bombeamento robustas, em uma área de intensa atividade sísmica e clima extremo.

Imagem: Imagem gerada por IA/Gemini
Repercussões internacionais e mudanças climáticas
O Tibete é a “caixa-d’água da Ásia”: rios que nascem ali abastecem países como Índia e Bangladesh. Estudos não oficiais de transporte de águas internacionais aumentam temores de que o SNWTP comprometa o abastecimento rio abaixo, gerando tensão diplomática. Além disso, o derretimento acelerado das geleiras do planalto, causado pelo aquecimento global, pode elevar temporariamente o fluxo dos rios, mas reduzir sua vazão no longo prazo.
Enquanto isso, o SNWTP segue como um marco da engenharia moderna, ao mesmo tempo em que expõe os dilemas ambientais, sociais e geopolíticos ao tentar redistribuir um recurso vital.
Com informações de Olhardigital


