A creatina é um dos suplementos mais consumidos atualmente por atletas, frequentadores de academia e pessoas interessadas em saúde e composição corporal. Embora conte com décadas de pesquisa, seu uso foi associado a promessas que vão além do desempenho físico e do ganho de massa muscular.
Revisão da Unesp questiona ação anti-inflamatória
Em junho de 2026, uma revisão sistemática da Universidade Estadual Paulista (Unesp), publicada na Frontiers in Immunology, avaliou oito ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo. Os estudos mensuraram marcadores inflamatórios, como proteína C reativa (PCR), interleucina-6 (IL-6), TNF-α e prostaglandina E2. Os resultados revelaram que, embora em alguns atletas de endurance de alta intensidade tenha havido redução de certos biomarcadores, não houve evidência consistente de efeito anti-inflamatório clinicamente relevante em grupos mais amplos, como idosos e pacientes com osteoartrite.
“O ponto central da revisão é que, ao reunir os ensaios clínicos disponíveis, os pesquisadores não encontraram reduções estatisticamente significativas em biomarcadores inflamatórios clássicos, como PCR e IL-6”, afirma o nutrólogo Felipe Gazoni.
Consenso sobre metabolismo energético e desempenho
Apesar da polêmica em torno da inflamação, o consenso científico reforça que a creatina atua no metabolismo energético ao elevar os estoques de fosfocreatina nos músculos, fundamental para ressintetizar ATP durante esforços intensos de curta duração. A International Society of Sports Nutrition (ISSN) considera a creatina monohidratada o suplemento ergogênico mais eficaz para melhorar a capacidade de realizar exercícios explosivos e repetidos.
“A creatina é um dos suplementos com maior volume de evidência na nutrição esportiva. Seu benefício mais consistente está no aumento da disponibilidade de fosfocreatina muscular, favorecendo a ressíntese rápida de ATP”, destaca o médico Wandyk Allison.
Recuperação muscular e diferença para ação anti-inflamatória
Especialistas alertam que recuperação pós-treino e redução de inflamação não são sinônimos. A recuperação envolve energia, reparo de fibras, sono, ingestão proteica e adaptação ao treino. Mesmo sem queda mensurável de PCR ou IL-6, alguns estudos perceberam melhora na sensação de fadiga e no retorno às atividades.
Terapias promissoras em investigação
Pesquisas recentes ampliaram o interesse para a preservação da massa muscular em idosos, desempenho cognitivo e aplicações neurológicas. Gazoni considera o uso em populações mais velhas promissor, sobretudo em associação com exercícios, mas aponta que efeitos em cognição, humor e prevenção de lesões ainda carecem de estudos mais robustos.
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Mitos persistentes
Dúvidas sobre risco renal, retenção hídrica, queda de cabelo e aumento de testosterona ainda circulam. Revisões sistemáticas não apontam lesão renal em indivíduos saudáveis. O aumento de água ocorre dentro das células musculares, não no tecido subcutâneo. Não há evidência clínica de que a creatina provoque calvície ou elevação hormonal significativa.
Os especialistas categorizam as alegações em três grupos: benefícios bem estabelecidos (força, desempenho intenso, fosfocreatina, ganho de massa magra), efeitos promissores (envelhecimento saudável, cognição, recuperação) e reivindicações sem suporte suficiente (anti-inflamação sistêmica, prevenção de lesões, emagrecimento isolado).
Como concluem os pesquisadores, a creatina mantém seu lugar como um dos suplementos mais estudados e eficazes para performance física, mas nem todas as promessas associadas a ela têm respaldo científico.
Com informações de Olhardigital

