O degelo do permafrost — camada de solo permanentemente congelada no Ártico — está liberando microrganismos que ficaram aprisionados por dezenas de milhares de anos. Com o aumento das temperaturas globais, vírus e bactérias até então dormentes podem voltar à atividade, colocando em risco a saúde de pessoas, animais e plantações.
Reativação de vírus ancestrais
Em 2022, uma equipe da Universidade de Aix-Marseille, na França, isolou e reanimou 13 vírus de amostras coletadas no extremo leste da Rússia. Entre eles, estava um exemplar de 48.500 anos — o mais antigo já ressuscitado em laboratório. Mesmo após milhares de anos inativos, os patógenos permaneceram capazes de infectar células hospedeiras.
As amostras incluíam fezes congeladas de um mamute com cerca de 27 mil anos e material estomacal de um lobo siberiano. Nesses substratos, os pesquisadores identificaram vírus denominados Pithovirus mammoth, Pandoravirus mammoth, Megavirus mammoth, Pacmanvirus lupus e Pandoravirus lupus.
No artigo publicado na revista Viruses, os cientistas alertam que, à medida que o permafrost derrete, vírus desconhecidos podem retornar ao ambiente. “Ainda é impossível estimar por quanto tempo esses agentes permanecerão infecciosos ao ar livre e qual a probabilidade de encontrarem hospedeiros adequados”, afirmam, destacando que o aquecimento global tende a elevar esse risco.
Impactos na saúde e no passado recente
O potencial de retorno de micróbios antigos já teve um exemplo prático em 2016, quando o descongelamento de uma carcaça de rena infectada por antraz, na Península de Yamal (Sibéria), provocou um surto da doença. A bactéria matou uma criança e levou ao abate de mais de 200 mil renas. Embora parte da comunidade científica atribua o incidente à queda na vacinação, o episódio reacendeu o debate sobre agentes patogênicos adormecidos.
Imagem: Imagem ilustrativa
Riscos à agricultura
Além de ameaçar a saúde, o derretimento do permafrost pode estimular a proliferação de patógenos de plantas. Em estudo do Instituto de Pesquisa Polar da Coreia, amostras de solo da Península de Seward, no Alasca, foram descongeladas em laboratório por 90 dias. Nesse período, a bactéria Pseudomonas, causadora da podridão mole da batata, multiplicou-se rapidamente e destruiu tubérculos, transformando-os em uma massa viscosa.
Pesquisas em núcleos de gelo da Groenlândia, com até 140 mil anos, também revelaram a presença do vírus do mosaico do tomate, capaz de infectar tomates, pepinos, pimentões, alface e beterraba. Com a migração de populações em direção às áreas recém-descongeladas, o solo liberado pode se tornar um ambiente propício para antigos microrganismos, trazendo novos desafios para a segurança alimentar global.
Com informações de Olhardigital