Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) analisaram como o organismo se ajusta a uma dieta praticamente livre de carboidratos e rica em proteínas. Publicado no American Journal of Physiology-Endocrinology and Metabolism, o estudo detalha as mudanças metabólicas observadas em camundongos submetidos a esse regime alimentar por cerca de 30 dias.
Adaptação do fígado e manutenção da glicose
Em condições de restrição extrema de carboidratos, o fígado assume papel central na produção de glicose. Ainda que os níveis de açúcar no sangue apresentem queda inicial, após duas semanas o órgão reorganiza seu funcionamento. O fígado passa a responder menos ao hormônio glucagon e transfere o controle da gliconeogênese ao fator de transcrição FoxO1, garantindo aporte estável de glicose para o cérebro e demais tecidos essenciais.
Processo histórico de investigação
O interesse sobre o tema data da década de 1970, quando cientistas da USP notaram em animais alimentados quase exclusivamente com proteínas que o corpo consegue gerar glicose internamente. Esse processo, chamado gliconeogênese, utiliza aminoácidos de proteínas como matéria-prima para produção de açúcar na ausência de carboidratos na dieta.
Resultados dos testes em camundongos
No experimento mais recente, os roedores consumiram um regime com 86% de proteínas e 0% de carboidratos por 30 dias. Durante esse período, os pesquisadores registraram:
- Manutenção estável da glicemia, mesmo em jejum prolongado;
- Redução inicial dos níveis de glicose;
- Reorganização do controle hormonal da gliconeogênese após aproximadamente 14 dias;
- Diminuição da sensibilidade hepática ao glucagon;
- Predomínio do FoxO1 na regulação da produção de glicose.
Papel dos hormônios do estresse metabólico
Além das alterações hepáticas, o hormônio corticosterona — equivalente ao cortisol em humanos — mostrou-se fundamental para a adaptação. Testes em que o hormônio foi bloqueado resultaram em queda na capacidade de manter a glicose sanguínea durante o jejum, comprovando sua influência no novo padrão metabólico.
Imagem: Imagem ilustrativa
Limites para aplicação em humanos
Embora o interesse em dietas hiperproteicas cresça, os autores ressaltam que ainda não existem estudos clínicos em humanos que reproduzam a ausência total de carboidratos observada no modelo animal. Ficaram em aberto dúvidas sobre efeitos a longo prazo em órgãos como rins e possíveis complicações em situações extremas.
O principal achado do trabalho é demonstrar a flexibilidade do metabolismo: o organismo não adota um único modo de operar, mas se reorganiza para manter funções vitais, como a produção de glicose. Esses insights podem auxiliar futuras pesquisas sobre distúrbios metabólicos, incluindo diabetes tipo 2.
Com informações de Olhardigital